terça-feira, 1 de setembro de 2015

O que a gente faz com a nossa vida enquanto a morte não acontece?



O último beijo

- Amor, cadê você? Estou indo para o trabalho, quero o meu beijo.  Anunciou ela com a porta da sala já entreaberta.

- Agora estou com a boca toda suja de iogurte e você tem aquela reunião importante hoje, esqueceu? Não pode se atrasar para o voo. Esbravejou ele da mesa da cozinha entretido com o noticiário da manhã.

- Ok. Smack smack smack. Fui!

- Te amo. Ah! Está levando a sua chave?

A porta já tinha sido batida. E sim, ela se esqueceu das chaves e ele – do beijo.

*********

De certo modo a gente anda realmente bastante atarefado, esquecendo nomes, aniversários; adiando aquela viagenzinha a dois na serra; a visita à avó que está fazendo hora extra no mundo; estamos deixando pra depois aquela geral no guarda roupas pra se desfazer das peças que nunca usamos; o telefonema pra mãe que está levando chá de cadeira. E quando conseguimos uma trégua, ficamos distraídos com a boca suja de iogurte.

Se a minha memória não anda falhando me recordo de que nos tempos de moleque existia uma gaveta com roupas exclusivas pra passear. Era praticamente crime usar uma blusa de Domingo em plena Segunda Feira. E a pena era pesada: dois dias sem assistir ao desenho favorito.  São os nossos pais nos adestrando em pensar que o amanhã é mais importante que o agora. Depois, com as espinhas, vieram os perfumes importados liberados somente em ocasiões importantes, e quando a barba coloriu todo o rosto veio aquele lero lero da casa própria (ter que economizar até o que não tem pra ter onde cair morto).

Na maioria das vezes as coisas não saem como a gente espera, e poderíamos ser muito mais felizes do que somos se a gente se desprendesse mais dessas fórmulas testadas e aprovadas pelo departamento das pessoas que já nasceram com tudo. Haverá sempre uma desculpa esfarrapada pra viver o amanhã: sonhar com um novo projeto mirabolante, perder mais dois quilos na próxima semana, fazer uma nova faculdade, comprar uma segunda casa, dar outra volta ao mundo, abrir mais uma empresa. O que a gente faz com a nossa vida enquanto a morte não acontece?

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Nesse dia, o marido se esquivou de um simples beijo com a desculpa de que ela poderia se atrasar, de que a sua boca estava suja (como se fosse preciso mover o mundo para usar um guardanapo), porque o noticiário cuspia uma revelação bombástica e ele não poderia perder por nada, pois tinha a certeza ilusória de que mais tarde a esposa voltaria com uma novidade esplêndida: a reunião do trabalho teria sido um sucesso. O tão esperado apartamento no Leblon ia, finalmente, sair do papel. Abririam aquele Cabernet Sauvignon comprado numa viagem à França e que já estava dando teia de aranhas. E então, fariam amor até o sol raiar.

Esse dia nunca chegou.

A garrafa de vinho nunca foi aberta.

E o apartamento do Leblon veio mundo abaixo quando o marido recebeu uma ligação para reconhecer o corpo. Do outro lado, uma voz, quase que mecânica, de uma pessoa que está acostumada a dar essas notícias de quinze em quinze minutos. E no lado de cá da escuta, um arrependimento que despedaça e nos transforma em pó.

‘- Amor, cadê você? Estou indo para o trabalho, quero o meu beijo. ’

Um arrependimento que adoece. A culpa de não ter tocado os seus lábios, sujado a droga da camisa de Domingo. A dúvida de que se talvez tivesse feito aquele pequeno gesto de amor teria evitado o acidente. Ou não, quem vai saber?

‘- Agora estou com a boca toda suja de iogurte e você tem aquela reunião importante hoje, esqueceu? Não pode se atrasar para o voo. ’

Desde que o ‘Eu te amo’ virou bom dia a gente anda colocando os sentimentos no modo avião. Falta conexão, mais verdade, mais olho no olho, mais vontade de estar juntos, mais cama desarrumada, mais obscenidades no cangote, mais fins de semana com pipoca jogados no tapete da sala. Porque a gente nunca sabe quando será o último dia, o último beijo, o último ‘Mô, estou chegando em casa’.

- Te amo. Ah! Está levando a sua chave?’

Precisamos ter mais criatividade pra amar num quarto e sala sem ficar naquela tortura patética de viver numa mansão à beira-mar. Entender que não importa se alimentamos, vestimos e damos o melhor aos nossos filhos, o que conta no final, é colocá-los no nosso colo e dizer o quanto os amamos – esse é o maior alimento para o espírito e que, certamente, os livrarão dos remédios tarja preta no futuro.

Mas o marido acordou a tempo. Saiu correndo, berrando com os pulmões, e alcançou a sua felicidade bem no elevador:

- Amor, aqui está a sua chave, eu te amo muito. Você me faz muito feliz, sabia? Se a reunião não sair como o esperado não importa, a gente dá um jeito. Estarei sempre esperando você voltar porque o seu sorriso é o meu oxigênio.

Ela sorriu com os olhos, sem conseguir expressar tamanha alegria. Passou-lhe as mãos na boca limpando o iogurte e despediu-se com um beijo daqueles de cinema.


Bruno de Abreu Rangel


10 comentários:

Anônimo disse...

Rapaz, me fez chorar nesse lindo texto. Pegou no meu ponto fraco. Perdi minha mãe alguns meses e ate hoje fico pensando se poderia ter dado uma ultima palavra. Mas fiz o que pude fazer. Fui boa filha. Obrigada pela reflexao.

Laura Pitangui Marini disse...

Sabias palavras...Gratidao..., amei o blog!!!

Anônimo disse...

Primeira vez que li uma cronica que me tocou lá no fundo. Te achei no facebook de um amigo que tinha postado outro texto seu diferente desse. Mas esse daqui me ganhou.

Alain Hubner disse...

ótimo texto leskeeey

Anônimo disse...

Que texto maravilhoso. Uma obra prima. Parabens

Anônimo disse...

Essa história da um conto e uma otima adaptação para a dramaturgia. Já pensou em escrever roteiros? É um excelente mercado e está faltando talentos como você. Fica aqui uma dica valida.

Anônimo disse...

A pessoa escreve um texto enorme falando mal dos outros e agora vem com texto de amor. Faça me o favor.

Vanessa Morito disse...

Infelizmente, a felicidade virou sinônimo de emergência e nem sempre as coisas às pressas, feitas nas cochas, são as que realmente importam e que vão gerar raízes. O simples é o que fica, o toque seguido de um olhar direto nos olhos é o que marca, um cheiro é o que se lembra... Não o lugar q saiu ou a conta que pagou... Precisamos urgente reverter esses papéis e diminuirmos as urgências!!!

Anônimo disse...

Nossaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Para tudo. O melhor texto do ano. Mil likes.

Anônimo disse...

Parabens...e pior q quantos só vao dar valor depois que perdem!!!